O split payment foi adiado, a reforma não
Você deve ter visto que a Receita Federal adiou o split payment obrigatório para 2028, o sistema que separa e recolhe os impostos automaticamente no momento do pagamento. O Fisco informou que a plataforma que viabiliza o mecanismo estará pronta no início de 2027, mas ele só será obrigatório quando todos os meios de pagamento e as instituições responsáveis estiverem integrados, o que deve acontecer apenas em 2028, nas operações entre empresas (G1; InfoMoney).
O adiamento deu a falsa impressão de que "a reforma está empurrada com a barriga". Não está. O que mudou foi apenas o cronograma de um mecanismo. A tributação do consumo, incluindo operações com imóveis, segue avançando conforme o calendário da Emenda Constitucional nº 132/2023 e da Lei Complementar nº 214/2025, sancionada em 16 de janeiro de 2025 e depois ajustada pela LC 227/2026 (ABECIP/Jota; Sou Brasília). Os testes começaram em 2026, a cobrança efetiva da CBS começa em 2027 e o novo sistema se consolida até 2033 (ABECIP/Folha).
Primeiro, o que NÃO muda: as isenções de Imposto de Renda na venda
Para a maioria das pessoas físicas que vendem o próprio imóvel, o ganho de capital, a diferença entre o preço de venda e o custo de aquisição, continua com as mesmas regras de isenção. A própria Receita Federal esclareceu que nada mudou nessas regras (Bora Investir). Segue vendendo com isenção de IR quem se enquadra em uma destas situações:
- ✔ Único imóvel por até
R$ 440 mil, desde que o vendedor não tenha vendido outro imóvel nos últimos 5 anos (Jusbrasil) - ✔ Reinvestimento em 180 dias, quando o valor total da venda é aplicado na compra de outro imóvel residencial no prazo de 180 dias, sem limite de valor (Jusbrasil)
- ✔ Imóveis adquiridos até 1969, com isenção total (Jusbrasil)
- ✔ Ganhos de até
R$ 35 milpor mês, que não sofrem incidência do imposto (NR Advocacia) - ✔ Fatores de redução por tempo de posse, como o redutor de 5% por ano de posse para imóveis adquiridos entre 1970 e 1988 (NR Advocacia)
Regra de ouro: a isenção do IR sobre ganho de capital não acabou. Se você vende o único imóvel ou reinveste em outro residencial, segue isento.
O que muda de verdade: IBS e CBS nas operações com imóveis
A reforma substitui cinco tributos (ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI) por dois: o IBS, de estados e municípios, e a CBS, federal. E aqui entra a boa notícia para o setor: o artigo 261 da Lei Complementar nº 214/2025 reduziu em 50% as alíquotas de IBS e CBS nas operações com bens imóveis, incluindo venda, incorporação e loteamento. Para locação, cessão onerosa e arrendamento, a redução é maior, de 70% (Sou Brasília; ABECIP/Folha). Na prática, nas locações a tributação incide sobre apenas 30% da base, e nas vendas sobre 50% (ABECIP/Folha).
Há ainda dois abatimentos previstos em lei. O redutor social, do artigo 259, permite deduzir da base de cálculo R$ 100 mil por imóvel residencial novo e R$ 30 mil por lote residencial, valores atualizados mensalmente pelo IPCA. O redutor de ajuste, do artigo 258, considera o valor de aquisição do imóvel no cálculo (Sou Brasília).
Em números de bolso: se a alíquota modal do novo IVA ficar em torno de 27% a 28%, o setor imobiliário opera com efetivo de aproximadamente 13% a 14% nas operações alcançadas, antes de créditos e abatimentos. Vale lembrar que esse é um cenário estimado, pois a alíquota de referência ainda não foi fixada oficialmente.
Quem é atingido:
- ✔ Pessoas jurídicas que incorporam, vendem ou lotam imóveis entram no novo sistema de forma ampla
- ✔ Pessoas físicas com habitualidade passam a ser tratadas como contribuintes de IBS/CBS quando vendem mais de três imóveis distintos, ou quando vendem mais de um imóvel que elas mesmas construíram nos cinco anos anteriores (Sou Brasília)
- ✔ Locadores profissionais entram no radar quando combinam dois critérios: mais de três imóveis distintos alugados e receita total com locação acima de
R$ 240 milpor ano (ABECIP/Folha; Sou Brasília)
Ou seja: a venda ocasional do seu imóvel pela pessoa física continua fora do IBS/CBS. O novo tributo alcança, sobretudo, quem opera imóveis como negócio. E atenção: o ITBI continua municipal e o imposto de renda sobre ganho de capital permanece na declaração anual, pois os tributos sobre transmissão de propriedade não foram substituídos pela reforma (Sou Brasília).
Cronograma: o que acontece quando
- ✔ 2026 (ano-teste) — empresas emitem notas com os campos de IBS e CBS para fins de apuração, sem recolhimento efetivo (ABECIP/Folha)
- ✔ 2027 — início da cobrança efetiva da CBS; split payment entra de forma facultativa e faseada (G1)
- ✔ 2028 — split payment obrigatório nas operações entre empresas (B2B), segundo a Receita Federal (G1)
- ✔ 2029–2032 — transição progressiva das alíquotas
- ✔ 2033 — consolidação: ICMS, ISS, PIS e Cofins são extintos e o novo sistema opera em plenitude (ABECIP/Folha)
E aí, vale a pena vender agora ou esperar?
Não existe resposta única, e é exatamente aí que mora o valor de acompanhar o mercado com quem entende. A isenção de IR continua valendo para a venda do seu imóvel habitual. As mudanças maiores atingem quem opera no setor em escala.
O que faz diferença real na decisão de vender hoje:
- ✔ O momento do mercado (juros, financiamento, demanda da região)
- ✔ O enquadramento do vendedor (PF ocasional, PF habitual ou PJ)
- ✔ O planejamento do reinvestimento (usar a isenção dos 180 dias a seu favor)
A reforma tributária não é um motivo para pânico, é um motivo para planejamento.
Amanda Lopes | Corretora de Imóveis — CRECI-MG 30.422.
Atendimento consultivo em Juiz de Fora.
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