Nos últimos dias, uma frase voltou a circular por aí: “o mercado imobiliário dá uma pausa nas semanas que seguem o primeiro turno das eleições presidenciais”. E, junto com ela, duas conclusões que quase sempre acompanham: que quem está vendendo deveria tirar o anúncio do ar até o segundo turno, e que quem quer comprar deveria esperar “o presidente assumir” para decidir.
Pois bem. Eu fui verificar o que os dados realmente mostram — porque, quando o assunto é patrimônio, o que precisa mandar é informação, não boato. E a resposta tem três partes.
O mercado desacelera em ano eleitoral? Sim, mas muito menos do que se imagina
A crença de que o mercado imobiliário “congela” em ano de eleição é antiga — e uma análise recente do mercado, publicada na CNN Brasil, revisitou o comportamento das vendas nas últimas eleições presidenciais e chegou a uma conclusão clara: existe uma leve desaceleração, mas a intensidade é muito menor do que o senso comum sugere (https://www.cnnbrasil.com.br/colunas/duda-herriot/economia/money/negocios/setor-imobiliario-deve-manter-resiliencia-pos-eleicoes/).
Os números de 2026 confirmam: uma pesquisa feita em setembro mostrou que, entre as pessoas com intenção de comprar um imóvel nos 12 meses seguintes, 51% afirmaram que a eleição presidencial não altera em nada seus planos (https://bentoazevedo.com.br/blog/compra-e-venda/eleicoes-2026-brasileiro-mantem-plano-de-comprar-imovel-mas-financiamento-exige-cautela). Ou seja: metade do mercado nem está olhando para as urnas na hora de decidir. Quem compra imóvel decide por vida, trabalho, família e planejamento — não por resultado de pesquisa eleitoral.
Para quem está vendendo: não há motivo para retirar o anúncio
Aqui o argumento fica ainda mais forte neste momento. O desconto médio na venda de imóveis novos está em recorde histórico: 14%, segundo levantamento do mercado imobiliário de 2026 (https://portas.com.br/dados-inteligencia/mercado-imobiliario-2026). Traduzindo: é um mercado que já exige negociação e paciência. Retirar o anúncio por três semanas significa perder exatamente o que um vendedor menos pode perder agora — momentum, visitas e negociações em andamento.
O imóvel não “descansa” fora do ar. Ele esfria. Quem estava procurando continua procurando — e, se o seu imóvel não aparece, aparece o do concorrente. Além disso, comprador que decide em ano eleitoral costuma ser um comprador mais decidido: ele não está esperando o país se definir, ele está resolvendo a vida dele.
Para quem quer comprar: o que manda não é o rosto do presidente, é a curva dos juros
E aqui chegamos ao ponto que realmente importa. O que mexeu com o mercado imobiliário depois do primeiro turno não foi o nome de nenhum candidato — foi a reação dos juros. Na semana seguinte à eleição, as taxas futuras caíram com força e o setor passou a falar em reprecificação do real estate, condicionada à política fiscal (https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/10/06/juros-dao-sequencia-a-rali-eleitoral-e-taxas-futuras-tem-queda-firme.ghtml e https://www.clubefiinews.com.br/mercado-imobiliario/eleicao-aumenta-expectativa-de-reprecificacao-do-real-estate).
Contexto: a taxa básica de juros, a Selic, vem caindo ao longo de 2026 — saiu de 15% ao ano e chegou a 14% em agosto, o menor patamar desde março de 2025 (https://portas.com.br/noticias/selic-credito-imobiliario). E é essa trajetória que define a parcela do seu financiamento, não o resultado do segundo turno. Juro caindo = crédito mais barato = poder de compra maior. É por isso que, para quem está organizado e com a documentação em dia, este pode ser um bom momento de negociar: o vendedor sente a pausa, o comprador sente o crédito melhorando.
Um detalhe importante: imóveis dentro do Minha Casa Minha Vida são ainda menos sensíveis a essa oscilação, porque têm taxas subsidiadas — o programa responde por mais da metade das vendas de imóveis novos no país.
Conclusão
Eleição passa. Juros ficam. A pausa eleitoral é real, mas é leve — e não é motivo para tirar o imóvel do ar nem para adiar um plano de vida. Quem vende deve manter o anúncio ativo e negociar com quem aparece. Quem compra deve olhar para a curva dos juros, não para a pesquisa eleitoral.
E se você está pensando em investir fora do Brasil, a lógica é a mesma, só muda o nome das variáveis: em Portugal, quem manda no financiamento é o spread bancário e a taxa do Banco Central Europeu — não a política local. É exatamente esse tipo de comparação que eu venho aprofundando na série sobre Juiz de Fora para Portugal e no meu próximo encontro com investidores de Brasil x Portugal.
Amanda Lopes | Corretora de Imóveis — CRECI-MG 30.422. Atendimento consultivo em Juiz de Fora. Para comprar, vender ou avaliar, entre em contato.
